sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nietzsche e a religião

Todo aquele que se interrogar pela concepção de Friedrich Nietzsche com relação ao cristianismo e à religião em geral deve dar um passo a mais na sua interrogação e perguntar-se pela concepção que tem o filósofo dos valores que até então atravessaram a história da moral ocidental e a história de toda moral. Um passo a mais será ainda necessário na medida em que, para Nietzsche, o que realmente subjaz à criação e à destruição dos valores são as forças e as relações de forças que não cessam de se superar, de se recriar, de se repetir, de se renovar, de se excluir e de se incluir numa dinâmica recíproca que permeia, invade, domina e determina toda a realidade, todo o existir, todo o ser. Com efeito, se existe um problema que acompanhou e obsedou o discípulo de Dioniso, esse foi o problema das forças e das relações de forças responsáveis pela criação e pela destruição, pela construção e pela demolição dos diferentes valores. Embora a vontade de potência só se encontre plena e explicitamente elaborada no terceiro e último período do filósofo – que, na minha leitura, começa com Aurora (1881) e se estende até os últimos escritos (1888) –, este conceito já se faz presente no primeiro período – dominado pelas análises em torno da tragédia e da cultura grega em geral – e também no segundo, com Humano, Demasiado Humano I e II (1878-1880), cuja característica principal é o deslocamento de acento para um determinado tipo de moral, a moral utilitária. Dos três conceitos básicos de Nietzsche – a vontade de potência, o niilismo e o eterno retorno –, foram os dois primeiros que principalmente pontilharam e fundamentalmente marcaram o desenrolar e a dinâmica de seu pensamento e de sua escrita. O niilismo, que é essencialmente inerente à vontade de potência, é ambíguo na medida em que se desdobra como uma contínua destruição dos antigos valores e, simultaneamente, como uma construção de novas e imprevisíveis interpretações, valorações, significações. Recriações. Não há, pois, um demolir para depois construir; há antes uma aniquilação e uma reedificação que se fazem concomitantemente, simultaneamente, na repetição e na diferença, na satisfação e na insatisfação, no gozar e no querer-mais. Convém ressaltar que as religiões, e o cristianismo em particular, não são sinônimos de niilismo, embora, na perspectiva de Nietzsche, não se possa conceber uma religião que não moralize e, consequentemente, não encerre uma tábua ou uma hierarquia de valores. A religião cristã e as religiões orientais não subsumem o niilismo, que é um movimento muito mais amplo e do qual, enquanto forças niilistas da decadência, estas se apresentam como expressões ou manifestações essenciais. Não se pode pensar na concepção nietzschiana do judeu-cristianismo e do budismo sem vinculá-la à sua visão da religião grega no tempo da tragédia e à crítica que, já na sua primeira fase, ele endereçara à filosofia de Schopenhauer. Os deuses do Olimpo e o Deus judaico-cristão Com efeito, já nos seus primeiros escritos, Nietzsche denuncia o fundo moral e as relações de forças a ele subjacentes que disputam entre si a potência sob os mais variados disfarces e os mais sublimes, nobres, elevados e espirituais atributos. Segundo Nietzsche, há basicamente dois tipos de forças: as forças que afirmam e enaltecem a vida e aquelas que, ao contrário, a denigrem, depreciam, caluniam e rebaixam. Eis a razão pela qual, já na Visão Dionisíaca do Mundo (1870) – escrito póstumo que data de dois anos antes da publicação do Nascimento da Tragédia –, o filósofo fazia ressaltar a superioridade da religião grega sobre as demais religiões, porquanto os deuses gregos que descrevem Homero, Hesíodo e Epicuro não são divindades que exprimem a indigência, a ascese ou o dever, mas, antes, criaturas que apontam para um excesso de força, de seiva e, consequentemente, para tudo aquilo que a vida tem de belo, de bom, de mau, de transbordante, de afirmativo e cruel. Os artistas que forjaram esses deuses eram, pois, senhores de uma fantasia genial que, projetando suas próprias imagens sobre o céu azul da Grécia, construíram um Olimpo onde essas formas podiam respirar o triunfo da potência juntamente com um sentimento de exuberância e justificação da existência e do mundo. Curiosamente, num fragmento póstumo da mesma época – fim de 1869, primavera de 1870 –, Nietzsche analisa essa mesma problemática ao chamar a atenção para a figura do asceta cristão que, ao contrário do artista heleno, encarna o tipo do negador e destruidor da natureza. Para o autor de , as direções ascéticas são o que há de mais hostil e oposto à natureza e à fertilidade que esta encerra. No seu intuito e no seu trabalho subterrâneo de tudo negar e tudo emendar, elas já revelam o que realmente são: frutos enfezados e estiolados que a própria natureza se encarregou de rejeitar, porquanto ela não quer propagar uma raça ou uma espécie de depauperados e enfraquecidos. “O cristianismo só poderia triunfar num mundo degenerado”, diz Nietzsche. A partir dessas considerações, súbito se adivinha: os deuses se apresentam para Nietzsche como reflexos da exuberância ou da indigência de um povo. De sorte que, quanto mais potente e aguerrida for uma nação, tanto mais exibirão os seus deuses as marcas da guerra, da conquista e do orgulho nacional. Inversamente, os deuses dos “bons”, dos falidos e dos fracos não terão senão sentimentos de vingança, de rancor e ressentimento contra tudo aquilo que eleva, transfigura e diz “sim” à vida. É o que Nietzsche já mostrava da maneira mais enfática no escrito de transição, Humano, Demasiado Humano I (1878). É o que ele também dirá num de seus últimos textos, O Anticristo, redigido no final de 1888 e publicado em 1895. No parágrafo 114 de Humano, Demasiado Humano, que tem sintomaticamente por título “O Não-grego no Cristianismo”, o filósofo declara que os helenos não olhavam para os deuses homéricos como seres acima deles próprios, à maneira de senhores; não se viam tampouco abaixo dos deuses, como servos, ao modo dos judeus. “Viam como que apenas a imagem em espelho dos exemplares de sua própria casta que melhor vingaram; portanto, um ideal, não um contrário de sua própria essência.” Onde, porém, os deuses olímpicos se eclipsavam, a vida grega também se revelava mais sombria, mais inquieta e ameaçada de arruinar-se. “O cristianismo, por sua vez” – conclui o filósofo –, “esmagou e alquebrou completamente o homem, e o mergulhou como que em um profundo lamaçal.” No Anticristo, Nietzsche verá essa mesma dialética em ação no seio do próprio judaísmo, na medida em que ele considera a época dos reis o período mais rico, mais próspero e potente da história de Israel. Consequentemente, Javé era a manifestação da consciência que este povo possuía da sua própria soberania, da sua força e alegria de viver. Portanto, através de Javé o povo esperava vitória e libertação; por meio dele depositavam confiança na natureza para que esta lhes concedesse aquilo de que mais necessitavam: chuva e uma colheita abundante. No entanto, essa época também devia chegar a um fim, ao qual Nietzsche atribui três causas principais: a anarquia interior, a ameaça assíria do exterior e a ascensão da classe sacerdotal ao poder. Gradualmente, portanto, o Deus de Israel, que até então refletia o orgulho e o amor-próprio de seu povo, viu-se reduzido a um Deus condicionado e vinculado a preceitos morais: toda felicidade era vista como uma retribuição pela obediência a Javé; todo infortúnio era, ao invés, recebido como uma punição pela desobediência a ele infligida. Se esta é, pois, uma das perspectivas a partir das quais Nietzsche analisa a religião dos gregos e aquela que brotou do solo e do povo judeu, como então ele considera o budismo e a sua relação com a filosofia de Schopenhauer? Schopenhauer, a tragédia e a negaçãobudista da vontade Na época em que Nietzsche redigia O Nascimento da Tragédia – publicado em janeiro de 1872 –, ele se achava sob a quase total influência de Schopenhauer. Assim, para o discípulo de Dioniso, a sabedoria trágica reproduzia, por meio da ilusão apolínea e da música dionisíaca, a mais íntima essência do mundo, da natureza, dos homens, da vontade ou, em suma, do Uno originário. No que diz respeito especificamente à música dionisíaca, esta se apresentava como um espelho sobre o qual se refletia a própria vontade universal, que nos chega como a verdade eterna ou, mais exatamente, como a verdade que jorra do fundo ou do núcleo do Uno originário. Sem embargo, na própria obra O Nascimento da Tragédia – e mesmo em alguns textos que a preludiam –, já se vê desenhar uma tomada de posição crítica vis-à-vis de Schopenhauer. E esta posição só tenderia a acentuar-se à medida que Nietzsche fosse também se distanciando do autor de O Mundo Como Vontade e Representação. Destarte, na seção 7 daquela obra, Nietzsche critica Schopenhauer justamente naquilo que o filósofo tem de comum com o budismo: a resignação e a negação da vontade diante do sofrimento que acarreta todo desejo. Ora, na perspectiva do discípulo de Dioniso, a consolação metafísica que suscita a tragédia, e que se encarna no coro satírico, é toda ela entretecida de gozo, o gozo na sua potência indestrutível que afirma a vida, apesar do caráter mutável do mundo fenomênico. Por conseguinte, o heleno profundo que o coro vem consolar – e que lança seu olhar sobre as forças demolidoras da natureza – corre ele também o risco de “aspirar a uma negação budística da vontade”. No entanto, a arte vem em seu socorro para redimi-lo, mas, “pela arte, é a própria vida que o redime para si mesma”. Num fragmento póstumo do verão-outono de 1884, que faz parte de seu terceiro e último período, Nietzsche se mostrará ainda mais incisivo com relação às forças niilistas da decadência, que, por natureza, são negadoras da vida e de tudo aquilo que ela tem de fértil, de belo, de abundante, de potente, de tenso, de deleitoso e sensual. Com efeito, nada repugna mais a Nietzsche do que uma religião cuja moral recomenda a domesticação dos instintos e a supressão do prazer. Esta é “uma medida de emergência tomada por naturezas que não conhecem o critério da medida e que não têm outra escolha senão a de se tornarem libertinos e porcos, ou então ascetas”. Essas naturezas – continua o filósofo – encontraram no cristianismo e no budismo um modo de pensar que é, no mais alto grau, adaptado a toda a escória dos decadentes, dos doentes e malogrados da existência. Pode-se, pois, perdoar-lhes o fato de denegrirem um mundo onde foram malsucedidos. “Mas faz parte da nossa sabedoria considerar essas doutrinas e religiões como grandes manicômios e casas de reclusão.” Em Para Além de Bem e Mal (1886), parágrafo 56, Nietzsche defenderá uma reflexão aprofundada sobre o pessimismo livre “da estreiteza e da simplicidade semicristã e semialemã” que, segundo ele, se exprimiram por último na filosofia de Schopenhauer. Assim, prossegue o filósofo, todo aquele que tiver lançado um olhar nos abismos do pensamento mais radicalmente negador – um olhar “para além de bem e mal e não mais, como Buda e Schopenhauer, na órbita da moral e de sua ilusão” – chegará talvez a abraçar um ideal totalmente oposto: o ideal do homem mais generoso, mais exuberante e mais afirmativo que possa existir. Ora, conquanto o problema central da filosofia de Nietzsche esteja nas forças e nas relações de forças que não cessam de se superar e de se recriar, retorna inevitavelmente a questão: não seriam justificados todos os seus ataques contra a religião, ou as religiões, justamente por elas se apresentarem, na sua perspectiva, como as manifestações essenciais das forças niilistas da decadência?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

TEOLOGIA EXISTÊNCIAL

Por anos, não me dei conta de que agi como um religioso obstinado. Hoje lamento ter sido um inquisitorial que defendeu a “verdadeira doutrina”; renego ter me sentado na cadeira do fariseu intolerante que espezinhou pessoas simples; choro porque já calei diante de desmandos de gente “famosa” só para continuar bem quisto; tenho vergonha de já ter envernizado minha fala para angariar simpatias de um clero que hoje desdenho. Para surpresa dos fundamentalistas, mas para alegria dos meus familiares, mudei bastante nos últimos anos. Adianto: não estou nem um tiquinho preocupado em ser bem falado pelos puritanos que tentam ressuscitar a ética vitoriana; não perderei meu sono com os que se escandalizam com meus textos pessimistas. Aliás, aconselho os piedosos que não visitem mais meu site, pois vou continuar escrevendo textos bem sombrios. Amiga leitora, você não imagina como eu ri quando recebi mensagens eletrônicas de crentes escandalizados com meu arrebatamento profano. Lembra aquela noite quando me deliciei com a cananéia Mercedes Sosa?, foi aquele. Minha nova teologia não é nova e nem é minha. Ela vem sendo vivenciada por teólogos latino-americanos que se distanciaram do cânon oficial – gente da estirpe de Juan Luis Segundo, Gustavo Gutierrez, René Padilla, Orlando Costas, Leonardo Boff e Jung Mo Sung. As coisas degringolaram de vez quando me apresentaram Brian McLaren, Rob Bell e os malucos da “Emergent Church”. Realmente, não consigo gostar dos livros do Max Lucado e se não me sinto tentado a organizar minha igreja com os “propósitos” do Rick Warren. Minha nova teologia carrega o anseio da liberdade. Aceito que sou um romântico desvairado sempre empolgado com essa palavra tão complicada. Eis o motivo porque concordo com Karl Rahner que “a liberdade é sempre mediada pela realidade concreta do espaço e tempo, pela corporalidade e pela história do homem”[1]. Assino em baixo com Jürgen Moltmann quando ele diz que “liberdade é um movimento criador". Vibro quando ele afirma que: “Aquele que em pensamentos, palavras e ações transcende o presente em direção ao futuro, este é que é livre. O futuro é para se entendido como o espaço livre para liberdade criadora”[2]. Não tenho como negar meu apreço por Paul Tillich e por seu conceito de liberdade como fundante do destino – “A liberdade é experimentada como deliberação, decisão e responsabilidade... Á luz dessa análise de liberdade, torna-se compreensível o sentido de destino”[3]. Gosto das articulações de Jonathan Sacks quando ele afirma que o conceito de liberdade forma o alicerce do vínculo pactual entre Deus e o homem: O conceito de um vínculo pactual entre Deus e o homem é revolucionário e não tem paralelo em nenhum outro sistema de pensamento. Para os antigos, o homem estava à mercê de forças impessoais que tinham que ser aplacadas... no humanismo secular, o homem está sozinho num universo cego às suas esperanças e surdo às suas preces. Todas estas visões são coerentes, e cada uma tem seus adeptos. Mas somente no judaísmo encontramos a asserção de que, apesar da sua completa disparidade, Deus e o homem se encontram como “parceiros no trabalho da Criação”. Não conheço nenhuma outra visão que confira ao ser humano tamanha dignidade e responsabilidade “[4]. Minha nova teologia tem como ponto de partida não a teoria, mas a vida com suas ambigüidades e paradoxos. Não parto de premissas teóricas do arrazoamento “científico” da verdade; não me encanto com devaneios conceituais do mundo do "andar de cima"; quero trabalhar com a revelação da história onde ponho os meus pés. Quero perceber o amor de Deus no decorrer da vida com tudo o que ela apresenta de bom e de ruim. Não pretendo interpretar o mundo, só quero modificá-lo para que nele se antecipe o Reino de Deus. Faço minhas as palavras de Moltmann em sua análise da Teologia da Libertação: “Ao contrário das teologias metafísicas, trancendentalistas ou personalistas, a Teologia da Libertação começa com a história como palco da manifestação de Deus e do encontro do homem com Deus. Com isto ela se liga às tradições bíblicas da história de Israel e da história de Cristo... “[5]. Nesse chão hermenêutico faço minha nova teologia, procurando criar práxis que desmonte estruturas injustas, opressoras e alienantes. Sem desmerecer a ortodoxia, procuro muito mais realizar ações transformadoras da realidades, do que tentar vingar minha exatidão conceitual – “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” João 13.35. Minha nova teologia é a antiga “teologia da esperança”. Acho que foi por isso que vibrei tanto com Carlos Mesters quando me ensinou que o relacionamento de Deus com seu povo é um apelo ao dinamismo e não à resignação: A presença de Deus na vida era percebida [no relato bíblico], antes de tudo, como apelo, como dinamismo, como futuro, que atraía e chamava o povo a ultrapassar-se, não permitindo que se acomodasse na estrada. A frase tantas vezes repetida: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo (Ex 6.7), fazia saber que o relacionamento com Deus no presente era apenas uma amostra-grátis daquilo que ele seria no futuro. A outra frase, igualmente freqüente despertava o povo a nunca contentar-se com o que já possuía, e a aprofundar onde estava escondido o germe de toda liberdade. Com outras palavras, a presença de Deus era percebida e vivida como o fundamento da esperança que os animava e os fazia caminhar. Ela era uma força que dinamizava a vida para a frente, levando o povo a conquistar-se e a conquistar o futuro que ele entrevia no contacto com esse Deus[6]. Minha nova teologia não se restringe em preparar gente para ir para o céu, quero aprender experimentar, aqui e agora, a vida em abundância que Jesus prometeu. Por fim, acho que minha nova teologia tem uma pitada de existencialismo – não sei se Kierkegaard gostaria de saber disso - porque acredito que o Reino de Deus já está entre nós; peço que Ele me dê olhos para ver, ouvidos para ouvir e coração para sentir esta realidade. (POR ALAOR COUTINHO GOMES).

sexta-feira, 12 de outubro de 2012


O Espírito de mentira na boca dos profetas


1. Eu devia cobrar essa aula... Mas vou dar a aula de graça, e fica como uma isca para você vir estudar Teologia na Unida, se desejar aprender essas coisas relacionadas à Bíblia.

2. 1 Re 22,21. Todas - anote: TODAS - as versões evangélicas em Português (que consultei até hoje) traduzem - ERRADO - "um espírito". A "badaladíssima" NVI, que se diz "nova", traduz assim:

"até que, finalmente, um espírito colocou-se diante do Senhor e disse: 'Eu o enganarei'"

3. Está errado. É um erro que um aluno de primeiro período de Hebraico não comete. A palavra traduzida por "espírito" é ruah. Está certo. Se você encontra "ruah" no texto, pode traduzir, como "espírito", de três modos: a) espírito, sem artigo algum, b) um espírito, com artigo indefinido, e c) o espírito, com artigo definido, dependendo do contexto. Ou seja: não é preciso haver artigo no Hebraico para que se possa/deva pôr artigo na tradução em Português...

4. Mas e o contrário? E quando, no Hebraico, há artigo? Bem, nesse caso, só se pode traduzir com artigo e - NUNCA - sem artigo. Assim, se você encontra no texto "haruah" (ha, artigo, mais ruah, espírito), então tem de traduzir "o espírito".

5. Em 1 Re 22,21 não está escrito "ruah", está escrito "haruah", logo, o tradutor, goste ou não, queira ou não, tem de traduzir "o espírito". No entanto, todas as versões evangélicas traduzem "um espírito".

6. Por quê? Por que o tradutor sabe Hebraico - tem até mestre e doutor em Hebraico envolvido com essas traduções - e, ainda assim, traduz errado?

7. Minhas respostas não são boas. Eis algumas respostas minhas:

a) interesse comercial - se ele traduz certo, vai dar dor de cabeça para os pastores das igrejas, a Bíblia vai encalhar, porque os pastores vão falar mau da Bíblia, e a Editora vai ter prejuízo;

b) negligência na tradução - o sujeito sequer olha o texto hebraico: abre 15 Bíblias na sua frente e faz um mamãe-mandou-bater-nessa-daqui. Basta você ler umas dez versões e verá a que copia de quem...

c) censura teológica - o tradutor não pode admitir o que está lendo, então, como é um santo homem e fiel crente, traduz de forma a proteger a sã doutrina de Deus, ainda que, para proteger a sã doutrina de Deus, tenha que trair a sã Palavra de Deus...

8. No caso de 1 Re, a história é a seguinte: Deus quer enganar o rei Acabe, fazer com que ele ataca determinada cidade, julgue que vai ganhar, perca e morra. Pede ajuda aos conselheiros da corte celeste para ver como poderiam enganar o rei, mas nenhum conselheiro tem uma ideia.

9. Então, o texto Hebraico diz que "haruah" - "o" espírito - se aproxima e diz que vai enganar Acabe. Deus fica animado e pergunta como, e "o" espírito responde que se tornará um espírito de mentira na boca dos profetas de Acabe, os profetas dirão que é para o rei subir contra a cidade, o rei atacará a cidade, julgará que vencerá, porque acreditará que Deus mandou - e, de fato mandou, mas para enganá-lo e ele morrer - e, como Deus quer, enganado pelo espírito, Acabe morrerá...

10. É demais para a cabeça do bom tradutor crente... Como "o espírito" pode enganar? Ele vai mentir para o rei? Vai... De modo que não pode ser...

11. Pior, para o tradutor crente, protetor da sã doutrina de Deus, "o espírito" do Antigo Testamento é "o Espírito Santo" do Novo Testamento - a cabeça dele não aguenta tanta confusão doutrinária - Deus enganar, o Espírito Santo mentir - e, então, com toda a "boa intenção" do mundo, o tradutor... mente...

12. Ele escreve "um espírito"...

13. O leitor poderá ser "esclarecido" de que se trata de "um espírito qualquer"... Aquele de Jó, talvez... Isso: o diabo! Pronto. Deus e o Espírito Santo estão protegidos e o diabo - como sempre - leva a culpa. O tradutor, assim, espera salvar as velhinhas da igreja de um colapso, salvar o escritor bíblico de ficar escrevendo bobagens e salvar Deus de enganar e o Espírito Santo de mentir...

14. Mas quem mente é ele, o tradutor.

15. É "o (próprio" espírito" de Yahweh/de Deus que se oferece para o serviço sujo - enganar o rei. No Antigo Testamento, ruah é apenas um secretário de Yahweh, que trabalha para ele, seja para fazer coisas boas, seja para fazer coisas ruins, como os secretários de Davi...

16. Quando Davi quer estuprar Batseba, mandou Joabe, seu secretário buscar a moça. Como o coronel Jesuíno, Davi a usa e manda embora: Joabe a leva. Ela engravida, Davi manda Joabe ir buscar o marido corno, Urias. Ao contrário de Davi, que em época de guerra estupra moças de família, Urias não se deita com a esposa, fica na porta. Joabe conta pra Davi. Davi manda Joabe pôr Urias lá na frente da batalha, pra que ele morra... E ele morre.

17. "Ruah", no Antigo Testamento, é uma espécie de Joabe de Yahweh, seu secretário. Por isso, quando Yahweh quer enganar o rei, e ninguém sabe como, ele, o ordenança de Deus, se apresenta e diz que resolve a parada.

18. E resolve...

19. O tradutor, coitado, se vê numa situação complicada, porque, em vez de traduzir a coisa como ela era apresentada há séculos atrás, quer fazer a passagem adaptar-se à fé, à teologia, à ética dos crentes de hoje.

20. A conta não fecha.

21. E, se não fecha, pior para a Bíblia: faz a Bíblia dizer o que nós queremos que ela diga...

22. E nós, professores críticos, é que somos hereges...




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 14 de setembro de 2012


"Ruah-Exú"

O texto é do Prof. Dr. Osvaldo Luiz Ribeiro, disponível em: http://peroratio.blogspot.com.br/2010/11/2010570-ah-esses-tradutores-de-biblia.html
O título dado pelo ilustre teólogo à sua postagem é "Ah, esses tradutores de Bíblia...", mas não resisti à tentação de dar ao meu post - compartilhamento ipsis literis do texto do Osvaldo - o (sub-)título "Ruah-Exú" [que (não) me perdoem os estimados possíveis leitores cristãos ortodoxos...(rsrsrs)]*

1. Um capítulo relevante da "Teologia" é o capítulo das traduções da Bíblia. Um bom jornalista investigativo faria, sem dúvida, uma matéria avassaladora, se nos contasse os bastidores desse mercado. Nós, que lidamos ano após ano com os textos publicados por insuspeitáveis editoras, comprometidíssimas que são com a sã doutrina!, que sabemos dos rios de dinheiro que correm por sob essa ponte, e que conhecemos o resultado da tradução desses livros bíblicos, nós temos uma relativamente boa idéia de como funciona a coisa lá embaixo. Cá em cima, à luz do dia, o mercado conta os milhões - bilhões? - de dólares que isso rende.

2. A Bíblia está cheia - não é um nem são dois casos - de traduções mal feitas, sistematicamente repetidas, o que denuncia compromisso de censura ou absoluta impostura da parte das Editoras e dos tradutores. E isso é assim também porque não há nada mais herético do que uma Bíblia bem traduzida - explicar as boas traduções, dizer porque é assim, implica em revelar o funcionamento interno da "Teologia", das doutrinas, revelar que tudo não passa de cooptação da fé de povos originariamente não-cristãos, não-judeus, longos desenvolvimentos e transformações na história, ou seja, que doutrinas e Teologias, todas, sem exceção alguma, são coisas de homens e de mulheres, coisas que inventamos nesses dois milênios e meio de cristianismo/judaísmo - para o bem e para o mal, a fé é uma colagem de recortes.

3. Isso me remete, parenteticamente, a um parágrafo da monumental biografia que Losurdo escreveu de Nietzsche, que trancrevo: "conhecemos a violenta polêmica de Nietzsche contra a difusão da instrução que acabaria minando a necessária sujeição das vitimas sacrificiais da civilizaão. Também este tema está bem presente na história do pensamento moderno. Para Necker, 'a instrução é proibida aos homens nascidos sem propriedade'; seria uma catástrofe se eles desenvolvessem 'a faculdade de refletir sobre a origem das classes', da 'propriedade' e das 'instituições'; é preciso não perder de vista que a 'desigualdade dos conhecimentos' é 'necessária para a mnutenção de todas as desigualdades sociais; pôr em discussão 'a cegueira do povo' e promover junto dele 'o aumento das luzes' significaria fazer o ordenamento social vacilar'" (Domenico Losurdo, Nietzsche, o rebelde aristocrata, Revan, 2010, p. 397). Sempre, sempre, absolutamente sempre, esconder...

4. Ontem dei uma "aula-teste". Quero aqui usar essa aula-teste. Quero falar de 1 Sm 16,14-23. Primeiro, conto a história que você, se conhece, é assim que conhece, principalmente se é evangélico e lê as versões Almeida. Eis a "história" - falsa, porque ela é um embuste, se assim contada: porque Saul fez alguma coisa desagradável ao Senhor, o espírito de Yahweh (espírito do Senhor) sai dele e passa a atormentá-lo um "espírito mau da parte do Senhor". Porque, quando assim possuído, Saul passa a ter ataques apopléticos, os servos que o cercam diagnosticam o caso: trata-se de um "espírito mau da parte de Deus" que atormenta o rei - se um homem tocar a lira, o espírito mau da parte de Deus vai embora, e Saul fica bem. Saul toma providências. Acaba contratando Davi, e, o verso 23 dá conta disso, toda vez que o "espírito mau da parte de Deus" atormenta Saul, Davi corre, toca a lira, e o espírito mau vai embora.

5. Assim contada (mas, repito, é falsa a história), estamos diante de nossa própria mitologia. Há espíritos maus. De vez em quando, Deus os usa, dando-lhes ordens, para atormentar alguns de seus desafetos. É alguma coisa bem próxima da demonologia que cerca o povo evangélico. Se alguém quer ver esses espíritos maus em ação, basta adentrar um templo neopentecostal, aproximar-se e contemplar a cena dantesca... O que a narrativa faz é transportar essa Teologia/demonologia para o texto. Mas ao custo de fraude.

6. Não é nada disso que o texto hebraico diz. Na aula de ontem, apresentada a alunos de gradução com pouquíssimos conhecimentos de hebraico, eles mesmos me ajudaram, durante o exercício, a fazer a tradução mais adequadamente. E deixem-me contar a história tal qual a Bíblia Hebraica a conta.

7. Porque Saul fizera algo que desagradara a Yahweh, Yahweh retira de Saul o seu "espírito" e imediatasmente, um espírito mau "desde junto de" Yahweh passa a atormentar o rei. Não se trata de um "espírito mau da parte de Yahweh". A construção hebraica "me'et" é a junção de duas preposições - "min" (que indica origem = "desde") e "'et" (que, nesse caso, significa "com", "junto de"): no conjunto, indica localidade de origem. Assim, o que o texto hebraico diz é que, tendo saído de Saul o espírito de Yahweh, um espírito mau que fica junto de Yahweh passou a atormentá-lo.

8. Vendo isso, os servos imediatamente interpretam a cena: caramba!, um (ou o) espírito de Deus mau atormenta o rei. Sim - "espírito de Deus mau". A tradução - nas Almeidas - "espírito mau da parte de Deus" - nos v. 15 e 16 é um crime, um erro grave. No hebraico - ruah 'elohim ra'ah - não permite, sob nenhuma prestidigitação, aquela tradução: literalmente, só cabe: espírito de Deus mau. Nos dois versos - 15 e 16. O que o texto hebraico dá a saber é que se acredita, lá e então, em espírito de Deus mau, assim como se acredita em espírito de Deus bom. Na verdade, os dois conceitos são intercambiáveis.

9. No verso 23, quando a história vai ser, finalmente fechada, Almeida, desgraçadamente, corrompe, de novo, o hebraico: já vimos, quando o espírito mau de Deus (tradução errada) atormenta Saul, Davi toca a harpa, e o espírito mau vai embora. Mas não é isso que o texto hebraico diz. No v. 23, o que está escrito é que, quando o espírito de Deus - sim, ruah 'elohim - atormenta Saul, Davi toca a harpa, e, então, o espírito mau se vai... Vês? Para o texto hebraico, espírito mau desde junto de Yahweh, espírito de Deus mau, espírito mau e espírito de Deus é tudo a mesma coisa - trata-se, sempre, do mesmo agente.

10. A Teologia que está aí parece ser a seguinte: quando Yahweh quer fazer algo bom, manda seu secretário, ruah (espírito, vento, sopro), que, fazendo algo de bom, é interpretado como espírito de Yahweh (ou espírito bom de Yahweh). Quando Yahweh quer fazer algo de ruim, manda o mesmo secretário, e, então, ele é descrito como espírito mau de Yahweh Yahweh não faz, manda fazer, e quem faz, é, sempre, ruah, o espírito, de modo que, se faz algo bom, é bom, se faz algo mau, é mau. Simples assim. Estamos numa época em que o povo acredita que Yahweh pode fazer o que é bom e o que é mau - e ninguém há que lhe possa pôr o dedo em riste...

11. Aí me vêm os tradutores, todos, santíssimos, nobilíssimos, zeladores da sã doutrina, vigilantes da heresia, e, para maior glória de Deus, fazem essa lambança, corrompem o texto bíblico, adulteram a tradução - desavergonhadamente, eu diria, porque, se alunos de graduação sabem traduzir, por que não eles? Sabem, sim, senhores, sabem: é que, alguns, sequer lêem, quando traduzem, mas meramente repetem a longa fila das versões, ao passo que outros, sabedores do que vai embaixo, adulteram programaticamente, porque são zelosos da fé...

12. E eu é que sou o herege! Que orgulho, então!


*para quem não entendeu o paralelo entre Ruah e Exú, consulte: http://www.orixas.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1&Itemid=57 e http://ocandomble.wordpress.com/

terça-feira, 4 de setembro de 2012


Por que sou contra o Ensino Religioso nas escolas

Compartilho um texto bastante pertinente do Prof. Dr. Osvaldo Luiz Ribeiro, disponível em:


Se ele não aprendeu, como vai ensinar?

1. Sabe aquele aluno (religioso e, não poucas vezes, pastor) que não aprendeu absolutamente nada sobre Ciências Humanas, porque o que ele aprendeu de Antropologia, Sociologia e Psicologia, no curso de Teologia, ele vomitou dez minutos antes da formatura - como é que ele vai assumir uma classe de ENSINO RELIGIOSO, cuja "filosofia" é justamente as Ciências Humanas, vedado todo proselitismo e confessionalismo?

2. Ele vai mentir?

3. Mentir para si e para a criança?

4. Ele vai fazer de conta que o que ele diz todos os dias sobre as outras religiões é mentira, e que elas são todas iguais?

5. Ele vai esquecer que diz todos os dias que Candomblé, Umbanda, Espiritismo, Islamismo (tá na moda, em "missões") e qualquer outra religião são todas coisas do diabo?

6. Ele vai esquecer isso e mentir - para si e para as crianças?

7. Ou vai mentir para a sua função e seu dever e catequizar - que é a única coisa que ele sabe fazer?

8. Uma aluna me disse: professor, pior é quando a Coordenadora é crente...

9. O problema não é apenas a sala de aula - não é apenas o professor que se servirá do sistema para "pregar o Evangelho": a estrutura inteira da Escola, se estiver na mão de crente (e de católicos?), vai se tornar em Cruzada de Jesus.

10. Alguém duvida?

11. Esse aqui, não.

12. E tenham certeza, senhores, que todos os alunos que passarem pela minha classe, na pós-graduação de Ensino Religioso, vão ouvir isso e - acreditem - um bocado mais.

13. Podem me chamar de manipulador e liberal.

14. Melhor do que manipular crianças - sempre elas, em estado de vulnerabilidade: quando não lhes metem a mão nas intimidades, lhes metem a mão na alma...

Da sub-educação teológica de nossos jovens crentes


Osvaldo Luiz Ribeiro*

1. Segunda-feira dei aula de Teologia da Educação Cristã. A turma é híbrida - tem alunos de segundo período e alunos novos, de primeiro período. Você vem no embalo, com os alunos mais velhos (seis meses) e, súbito, o trem para na estação para pegar passageiros novos...

2. Em nenhuma disciplina do planeta, salvo aquelas que exigem pré-requisitos técnicos, isso seria um problema. Mas é teologia. Ninguém está, nunca, pronto para aulas acadêmicas de Teologia.

3. Na segunda, alguém já pergunta a um aluno antigo, depois da aula (escuta, esse professor é ateu?). Ontem, durante a aula de outro professor, perguntam a ele se o professor Osvaldo é crente...

4. Já falo sobre isso. Antes, comentar que é o eterno fluxo das novas fornadas. Todos os anos, alunos entram nas salas de teologia, vindos de suas respectivas EBD. O choque é inevitável, se você respeita a sua profissão de educar. Seis meses depois, já entenderam a coisa toda, um ano depois, começam eles mesmos a fazer os seus próprios questionamentos.

5. Mas as primeiras aulas, inevitavelmente, cabelos arrepiados, carnes trêmulas, ossos retesados, coração paralisado, susto...

6. Alunos novos de teologia...

7. Já disse aqui, outro dia, que considero criminoso o que se faz com os crentes. E o que eles mesmos deixam que façam com eles. Porque não se educam os crentes: se encabrestam. Pensar, nem pensar! Refletir, só a partir do dogma. Liberdade, só de falar mal dos outros, da religião dos outros, mas, para olhar para sua própria fragilidade, não.

8. São vítimas, coitados. E, todavia, vítimas que se tornam, algumas vezes, insuportáveis, porque se trata de uma situação de alienação engajada, a alma se torna violenta, o espírito, de Cruzada. Não são coisa com que se deva preocupar, mas quanto ao estado dessa mente, dessa alma, toda dor que se possa sentir por elas é pouco: estão aleijados, aviltados, violentados.

9. E usaram Deus, a fé e a Bíblia para isso...

10. Na sala de aula, não encontraram - muitas vezes! -, eco doutrinário. Mas isso não é o pior. Porque até poderiam encontrar eco doutrinário contrário à sua fé. No entanto, entrar numa sala de aula, você batista, e deparar-se com um calvinista a distribuir pérolas de Calvino apenas reforça o "jogo" da fé dogmática, o aluno batista faz-se ainda mais batista, ainda mais cruzado, ainda mais "fiel" - na verdade, ainda mais prisioneiro da "Ideia" que o controla e manipula 24 horas por dia...

11. Quando, todavia, ele encontra um professor, dois, três, que, em lugar de se pronunciarem desde uma posição doutrinária, posicionam-se fora do campo de atuação da doutrina teológica, assumem uma meta posição teórico-metodológica para, desde lá, analisar, como iguais, todas elas, todas as doutrinas, todos os dogmas, cristãos ou não, como fenômenos de cultura, fenômenos humanos, condição necessária para o estudo delas, aí, senhores, os "zumbis da fé" entram em colapso, porque, para eles - anotem: para eles - essa é uma posição de não-fé, de ateísmo, de apostasia...

12. Não entendem, mas entenderão, é uma questão de tempo - que o estudo e a pesquisa impõe a você uma meta-posição, a olhar as coisas desde fora, com o máximo de isenção e crítica possível. Mais ainda, não sabem nada de teologia, nada, nada vezes nada, e chegam em sala de aula como se soubessem tudo, porque a EBD lhes ensinou: seus pastores são criminosos, senhores, criminosos...

13. Aos novos alunos, eu diria, como disse, que devem fazer como Maria: guardem as coisas no coração, esperem, tenham paciência, estudem, leiam, reflitam, deem tempo ao tempo.

14. Aos demais, aos pastores, principalmente, eu diria que passou da hora de agir de modo humano com esse povo. Não é necessário acabar com as doutrinas, admito. Mas a catequese devia fazer-se no campo da pluralidade. Os meninos e as meninas "educados" (?) na Igreja deveriam aprender que essa doutrina assim e assim é representativa dessa igreja, mas não daquela, que, naquela, a doutrina é assim assado. Eles aprenderiam que o que têm na mão são tradições históricas, e que há outras, e, mais do que isso, que, acima de todas elas, se pode por-se a estudá-las como fenômeno humano.

15. Mas não: fazem-se de Deus os pastores, e inculcam na cabeça vitimada dos meninos e das meninas essas mesmas tradições, mas com o rótulo de verdade, de inquestionável verdade. Crime.

16. A educação teológica deve enfrentar essas situações - mas não porque isso faça parte da "educação" religiosa: é um acidente que poderia ser evitado. Mas acredito cada vez menos que será, porque, entra ano, sai ano, e lá se vão mais de 20, e a história se repete: a cada nova fornada, biscoitos cada vez mais assados... Ou menos. No ponto, um ou dois...

17. Ah, quase ia esquecendo de responder as duas perguntas: se sou ateu? Se ser ateu é recusar-se a repetir os credos, porque não os pode assumir como outra coisa que não tradição humana, e que como tal os reconhece e como tal os estuda, então sim. Se sou crente? Bem, o diabo é. Faz diferença?

*Osvaldo Luiz Ribeiro é doutor em teologia pela PUC-Rio e professor da Faculdade Unida de Vitória.

(2012/665) Vamos usar a metáfora da Bíblia como cocaína?

1. Eu mesmo, quando vi a foto da Bíblia sendo "cheirada", senti um arrepio de indignação e "nojo". Achei-a, de pronto, de péssimo gosto, e o disse no facebook. Todavia, um senhor golpe de marketing, ainda que não tenha sido programado - mas essa igreja vai aumentar exponencialmente seus seguidores por conta desse golpe de sorte midiático, essa mídia gratuita que a exposição da imagem renderá. Nossa massa popular está pronta para essas coisas. Quanto mais escabrosa, mais seguidores. É a época dos shows, das imagens, da loucura completa...

2. Aqui, quero aproveitar a "onda" e usar a metáfora da Bíblia como droga...

3. E é. A Bíblia, cheirada, fumada, picada na veia, é vendida em diversas bocas denominacionais. Vende tanto a droga, que já não é possível nem falar em bocas denominacionais apenas, que ainda há, e muitas, mas em bocas empreendedoras, de iniciativa privada - qualquer um abre uma boca e vende a sua droga...

4. Nessas bocas - denominacionais ou empreendedoras, de CNPJ ou CPF, tanto faz - só se vende um tipo de droga: você usa assim, e todo mundo que ali consome a droga consome daquele jeito. Na outra boca, ensina-se a cheirar com canudinho. Na outra, picada na veia. Na outra, adesivo na pele. Na outra, num narguilé espiritualóide.

5. Se alguém denuncia a venda de droga, um auê se instala. Usar a droga de modo alternativo, crítico, não: não pode. Fuma, até os olhos ficarem brancos... Seguem-se orgias espirituais...

6. A foto pode chocar - e choca, porque é de baixíssimo nível. Mas é reveladora. É exatamente isso em que a Bíblia se tornou - uma droga...

7. Já vejo os tradicionais se levantarem de suas cadeiras, horrorizados - Osvaldo nos põe no mesmo nível desse "doido". Sei que a reação virá, porque é o mesmo com as igrejas neo - quando digo que é tudo a mesma coisa (em certo nível de análise), aborrecem-se. Mas é tudo a mesma coisa (em certo nível de análise). Da mesma forma como todos vendem a mesma coisa como droga...

8. Drogas de constituição química, dosagem e efeito diferenciado - mas, tudo, droga. Você não pode, nunca ficar sóbrio: é para embebedar-se - e quanto mais loucura, quanto mais maluquice, melhor.

9. Mas o conceito de droga é muito fluido, e você não precisa pensar exclusivamente em cocaína, como a foto-imagem sugere. Pode ser álcool - o álcool do Espírito, que embebeda -, pode ser cafeína - a cafeína do ativismo alucinado -, pode ser anfetaminas e comprimidos para dormir - e quanto não se dorme a vida inteira, embalado em fantasias!

10. Quando, em plena era e guerra do ópio, Marx usou a metáfora dessa droga para a religião, não imaginava que inaugurava - se é que ela não fora usada antes - uma metáfora apropriadíssima para os séculos XIX, XX e, sobretudo, esse nosso, XXI, sociedade de consumo de droga. Entre elas, essa, que, agora, sequer se constrange de ir a público confessar sua condição narcótica.

11. Fuma, não, gente. Cheira, não! Pica, não, gente! Leia, leia com seriedade, com crítica, desmonte de sobre ela o jugo narcótico, o encantamento entorpecente. Desnude esse livro, ele e seus gerentes: acerte as contas com a sua tradição...

12. Se eu acredito que vai acontecer? Não. Nem um pouco. A tendência é piorar - porque, quando você acha que já viu de tudo, nem imagina o que está por vir...

13. O quê? Você tinha medo do anti-cristo... Então espera para ver o reino evangélico...

14. Porque, por favor, preste atenção: você pode ir ao Santo Daime, tomar o "soma" do cipó enteógeno, ficar muito doido, viajar até Andrômeda, vomitar horrores, ver as mirações que desejar ver, tudo bem, que, depois do rito, você volta para casa e a vida continua na normalidade. O rito fica lá, no lugar do rito...

15. A desgraça - DESGRAÇA - dessa coisa evangélica - e cada vez mais demente - é que a loucura não fica lá no lugar da loucura: ela quer invadir a sociedade, o Legislativo, o Judiciário, o Executivo, a minha casa, a sua, a minha mente, a sua - não é penas droga, é doença.

16. Não, não haverá cura. Sou pessimista.

17. Oxalá um péssimo filhote de Nostradamus...




OSVALDO LUIZ RIBEIRO